Nem toda transformação social nasce de grandes discursos ou atos públicos e muitas vezes ela começa de forma silenciosa quase imperceptível no cotidiano. Ela surge em uma fala corrigida no momento certo em um espaço que é dividido com respeito ou em um não dito sem culpa nem justificativas excessivas. É nesse território dos detalhes que o microfeminismo atua ao propor pequenas práticas diárias que quando somadas questionam desigualdades de gênero rompem padrões históricos e constroem ambientes mais justos saudáveis e humanos para as mulheres.
A psicóloga social, Linda Tamares, explica que o termo se refere a ações simples e conscientes do dia a dia que enfrentam o machismo estrutural de forma prática e acessível. “Essas atitudes promovem equidade autonomia e reconhecimento feminino em diferentes espaços como o trabalho a casa as relações afetivas e as redes sociais e ao mesmo tempo fortalecem a sensação de pertencimento e validação”, avalia Linda.
Sob a ótica da saúde coletiva Linda destaca que o microfeminismo atua diretamente na prevenção do adoecimento mental feminino pois as desigualdades de gênero são reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde como determinantes sociais que afetam oportunidades estresse no trabalho e qualidade de vida. “Em um cenário em que os riscos psicossociais ganham visibilidade inclusive no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais falar de microfeminismo também significa promover saúde mental prevenir sofrimento e fortalecer vínculos sociais”, reforça Linda.
A socióloga, Nívia Bulgário, esclarece que o microfeminismo não é sobre fazer menos mas sobre fazer de forma consciente e responsável. “Cada atitude conta porque mudanças estruturais também começam no cotidiano e essa prática pode e deve ser exercida por todos os gêneros já que o objetivo é a construção contínua de uma sociedade mais equilibrada que valorize competência, respeito e humanidade”, pondera.
Atitudes práticas
Dar crédito às mulheres em reuniões é um passo essencial pois reforçar ideias que foram ignoradas quando ditas por mulheres ajuda a combater a invisibilização profissional que é um fator reconhecido de sofrimento psíquico no trabalho.
Questionar padrões estéticos impostos também faz diferença já que evitar comentários sobre corpos e valorizar competências em vez da aparência reduz a pressão estética associada à baixa autoestima.
Dizer não sem se justificar excessivamente é outra prática transformadora pois muitas mulheres são socializadas para agradar e se explicar o tempo todo e aprender a estabelecer limites fortalece a autonomia emocional.
Compartilhar tarefas domésticas e de cuidado é indispensável porque a sobrecarga feminina nesse campo é amplamente documentada e mulheres dedicam em média o dobro do tempo aos afazeres domésticos e à responsabilidade pelo cuidado enquanto uma divisão mais justa impacta diretamente o bem-estar físico emocional e mental.
Apoiar outras mulheres sem competir fortalece ambientes colaborativos que reduzem o isolamento ampliam redes de apoio e criam espaços de crescimento coletivo funcionando como um potente fator de proteção para a saúde mental.










