A misoginia ganhou escala, estratégia e financiamento nas plataformas digitais. O relatório “Aprenda a evitar ‘este tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube”, produzido pelo Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais em parceria com o Ministério das Mulheres e o NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), expõe um modelo organizado de produção de conteúdo que transforma o ataque às mulheres em negócio.
De forma sistemática, criadores estruturam narrativas, fidelizam público e convertem visualizações em receita. Portanto, não se trata de episódios isolados, mas de uma engrenagem articulada, com lógica própria de expansão e rentabilidade.
Os pesquisadores analisaram mais de 76 mil vídeos em português no YouTube e identificaram 137 canais com conteúdo explicitamente misógino, muitos vinculados à chamada “machosfera”. Esses perfis acumulam bilhões de visualizações e milhões de comentários. Além disso, estimulam comunidades digitais que reforçam discursos de aversão, controle e deslegitimação da autonomia feminina. Assim, o alcance massivo amplia o impacto e consolida uma audiência fiel e engajada.
Estratégias discursivas e alvos preferenciais
Para sustentar suas narrativas, os produtores utilizam linguagem persuasiva, recortes de entrevistas, exemplos isolados e generalizações. Ao mesmo tempo, exploram temas sensíveis — como relacionamentos, maternidade, sexualidade e mercado de trabalho para reforçar estereótipos históricos.
Frequentemente, atacam feministas, mães solo e mulheres independentes. Também desqualificam aparência, idade e comportamento como estratégia de ridicularização pública. Além disso, difundem a ideia de que mulheres manipulam homens ou ameaçam a estrutura familiar. Com isso, constroem uma narrativa de “crise masculina” e atribuem às mulheres a responsabilidade por frustrações sociais.
Consequentemente, essa estratégia gera identificação emocional e engajamento constante. Comentários, compartilhamentos e debates inflamados ampliam o alcance dos vídeos. Quanto maior a controvérsia, maior a circulação do conteúdo.
Monetização e impacto social
Paralelamente, os criadores transformam audiência em receita. Eles utilizam anúncios da própria plataforma, doações em transmissões ao vivo, clubes de assinatura e venda de cursos ou consultorias. Dessa forma, convertem discurso discriminatório em produto.
Quanto maior a polêmica, maior o engajamento. Em seguida, o sistema de recomendação amplia a distribuição e potencializa ganhos financeiros. Assim, a misoginia deixa de ser apenas discurso e passa a integrar uma cadeia econômica digital.
Esse cenário revela um problema estrutural. A internet não opera como espaço neutro. Ao permitir que conteúdos que reforçam desigualdades circulem e gerem lucro, as plataformas contribuem para a normalização da violência simbólica.
Da tela para a vida real
Por fim, o relatório defende ações concretas: maior responsabilização das empresas de tecnologia, fortalecimento de políticas públicas e ampliação da educação midiática. Afinal, ignorar a misoginia digital significa naturalizar práticas que impactam relações sociais, decisões políticas e comportamentos cotidianos.
Quando a violência simbólica se consolida no ambiente virtual, ela ultrapassa a tela, contamina o debate público e atinge a vida real. E, nesse processo, compromete direitos, enfraquece a democracia e impõe retrocessos à sociedade.










