Sampat Pal Devi, liderança que transformou dor em resistência coletiva

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Em vilarejos esquecidos do norte da Índia, a violência doméstica permaneceu por décadas protegida por tradições rígidas e pela omissão do Estado. Ainda assim, diante desse cenário, um grupo de mulheres decidiu transformar indignação em ação coletiva. Desse movimento nasceu a Gulabi Gang, uma organização feminina que passou a unir sobrevivência, enfrentamento e articulação social em um dos contextos mais desafiadores do país.

O grupo surgiu em 2006, no estado de Uttar Pradesh, região marcada por pobreza estrutural, desigualdade de gênero e baixa presença institucional. Sob a liderança de Sampat Pal Devi, a iniciativa ganhou forma e propósito. Casada ainda na infância e vítima de violência, Sampat transformou a própria experiência em ponto de partida para mobilizar mulheres que viviam sem qualquer proteção formal.

Onde o Estado se ausenta, elas ocupam espaço

Uttar Pradesh concentra alguns dos piores indicadores sociais da Índia, sobretudo no que diz respeito à segurança feminina. Em muitas áreas rurais, delegacias se recusam a registrar denúncias. Ao mesmo tempo, tribunais operam de forma lenta e ineficaz. Como consequência, vítimas acabam pressionadas a silenciar para preservar a chamada “honra” da família.

Diante dessa realidade, a Gulabi Gang passou a atuar como força de mediação, pressão social e proteção comunitária. Em vez de esperar respostas institucionais, as mulheres ocuparam espaços historicamente negados a elas.

Vestidas com sáris cor-de-rosa, as integrantes carregam varas de bambu, conhecidas como lathi, tradicionalmente associadas à autoridade policial. Esse gesto carrega intenção clara. Ao assumir símbolos ligados ao poder masculino, o grupo reivindica presença, respeito e capacidade de reação. Ao mesmo tempo, o rosa deixa de representar delicadeza e passa a expressar identidade coletiva, visibilidade e enfrentamento direto ao patriarcado local.

Ação direta como resposta extrema

Com o tempo, a Gulabi Gang ganhou repercussão internacional ao adotar ações diretas contra maridos abusivos, agressores sexuais e autoridades corruptas. Em situações nas quais denúncias eram ignoradas de forma recorrente, as mulheres organizavam confrontos públicos para expor os responsáveis e interromper ciclos de violência.

Apesar das críticas, essas ações nunca foram tratadas como regra. Pelo contrário, surgiram como último recurso diante da negligência sistemática. A própria liderança do movimento reforça que o objetivo central sempre foi garantir escuta, registro formal das denúncias e acesso à justiça, ainda que, em muitos casos, fosse necessário pressionar o sistema para que ele funcionasse.

Muito além do confronto físico

A atuação da Gulabi Gang não se limita ao enfrentamento direto. De forma contínua, o movimento oferece orientação jurídica, acompanha vítimas até delegacias e tribunais e atua no combate a práticas como casamentos infantis e forçados.

Além disso, o grupo defende o acesso à educação, à saúde básica e a condições mínimas de dignidade. Paralelamente, promove ações de conscientização nos vilarejos, incentiva a participação feminina na política local e denuncia esquemas de corrupção que afetam diretamente comunidades vulneráveis. Em muitas regiões, a Gulabi Gang se tornou a única rede de apoio real disponível para mulheres em situação de violência.

Reconhecimento, críticas e permanência

Ao longo dos anos, a Gulabi Gang passou a integrar debates globais sobre direitos humanos e violência de gênero. Documentários, pesquisas acadêmicas e reportagens internacionais ampliaram a visibilidade do movimento para além da Índia. Ainda assim, suas integrantes continuam enfrentando ameaças, perseguições e tentativas de criminalização, sobretudo por desafiarem estruturas tradicionais de poder.

Apesar disso, o grupo permanece ativo e relevante. Não porque defenda a violência, mas porque escancara uma verdade incômoda. Quando instituições falham de forma contínua, mulheres constroem seus próprios mecanismos de defesa.

A história da Gulabi Gang não romantiza o confronto nem ignora suas contradições. Ela revela, com clareza, o que acontece quando o silêncio deixa de ser opção e a coragem passa a ser coletiva.

Vestidas de rosa, essas mulheres escolheram não desaparecer. Optaram por ocupar ruas, denunciar abusos e proteger umas às outras. Em um cenário de abandono estrutural, transformaram resistência em identidade e ação em possibilidade concreta de mudança.

Por isso, seguem como um dos símbolos mais contundentes da luta feminina contemporânea.