Em 2025, o Brasil alcançou um marco que jamais deveria ser tratado como estatística recorrente. O país registrou o maior número de feminicídios de sua história. Foram 1.470 mulheres assassinadas ao longo do ano, o que significa quatro vidas interrompidas todos os dias por uma violência que tem gênero, tem raízes históricas e é alimentada pela desigualdade estrutural.
Os dados consolidados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública do Ministério da Justiça e Segurança Pública superam os registros de 2024, um ano que já havia quebrado o recorde anterior. O cenário não aponta para episódios isolados, mas revela a permanência de um problema crônico que atravessa gerações, territórios e relações sociais no Brasil.
Mais do que números, eram mulheres com nomes, histórias e vínculos. Thalita Marques Berquó Ramos, de 36 anos, assassinada pelo marido. Tainara Souza Santos, de 31 anos, arrastada por cerca de um quilômetro por um carro e morta na véspera de Natal. Allane de Souza Pedrotti Mattos e Layse Costa Pinheiro, executadas a tiros por um colega de trabalho que não aceitava ser liderado por uma mulher. Maria Katiane Gomes da Silva, jogada do décimo andar do prédio pelo namorado. Juliana Soares, de 35 anos, brutalmente espancada pelo então namorado dentro de um elevador em Natal, em um episódio que chocou o país pela violência explícita registrada em imagens. Sabrina de Almeida Lima, de 27 anos, assassinada junto com os três filhos pelo próprio marido, que confessou o crime. Cada caso escancara não apenas a brutalidade, mas o padrão.
Embora a taxa nacional de feminicídios permaneça em 0,69 morte a cada 100 mil habitantes, a mesma observada entre 2022 e 2024, especialistas alertam que a aparente estabilidade não representa controle da violência. Pelo contrário, evidencia a incapacidade coletiva de romper ciclos, antecipar riscos e proteger mulheres antes que a agressão alcance seu desfecho mais extremo.
O feminicídio raramente acontece sem sinais prévios. Ele costuma ser o último capítulo de uma trajetória marcada por ameaças, agressões psicológicas, controle, medo e silenciamento, quase sempre dentro de relações afetivas, familiares ou de proximidade. Por isso, o enfrentamento exige mais do que respostas emergenciais. Demanda políticas públicas integradas, redes de acolhimento fortalecidas, acesso efetivo à justiça e uma transformação cultural sustentada pela educação, pela prevenção e pela responsabilização social.
Para a psicóloga social Maria Eduarda Magalhães, os números expõem uma falha que ultrapassa as estatísticas.
“O feminicídio não é um evento isolado nem resultado de um ato impulsivo. Ele é o desfecho de um processo contínuo de violência, sustentado por normas sociais que ainda naturalizam o controle, a desigualdade de poder e a desvalorização da vida das mulheres. Do ponto de vista da Psicologia Social, esses crimes refletem uma falha coletiva. Quando a sociedade minimiza sinais de violência, silencia vítimas ou transfere a responsabilidade para a mulher, contribui para uma escalada que pode terminar em morte.”
Diante desse cenário, enfrentar a violência de gênero deixa de ser apenas uma pauta institucional e se afirma como uma responsabilidade ética e coletiva. Exige romper silêncios, questionar comportamentos naturalizados e reconhecer que cada número representa uma história interrompida. Enquanto quatro mulheres morrem todos os dias, a urgência não pode ser adiada.
Onde buscar apoio:
• Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180: Funciona 24 horas, gratuitamente, em todo o Brasil. O serviço oferece orientação, acolhimento, registro de denúncias e encaminhamento para a rede de proteção mais próxima.
• Emergência – Ligue 190: Em situações de risco imediato, acione a Polícia Militar.
• Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs): Para registrar ocorrência e solicitar medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha.
• Serviços de saúde e assistência social: Unidades de saúde, CRAS, CREAS e centros de referência para mulheres oferecem acolhimento, atendimento psicológico e orientação social.
Violência não é culpa da vítima. Pedir ajuda é um ato de coragem, proteção e dignidade. Ninguém merece viver com medo.










