A arte de jejuar para além do propósito

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Como católica, cresci habituada à prática do jejum com um propósito bem definido. Durante muitos anos, ele esteve restrito quase exclusivamente ao período da Quaresma. No entanto, com o passar do tempo, passei a inserir o jejum em momentos menos convencionais, em períodos aleatórios, sempre que sentia a necessidade de aprofundar minha conexão espiritual ou silenciar uma aflição interna, muito além da lógica da troca ou da barganha por uma promessa atendida.

Hoje, cada experiência de jejum se apresenta como um desafio maior. Trata-se um pouco menos de uma entrega a Deus, embora a oração com meu bom Jesus esteja sempre presente e bem mais de um embate comigo mesma. É um exercício de disciplina, retidão e, sobretudo, autocontrole. Em 2025, rompi meu próprio limite: após concluir a Quaresma, ampliei voluntariamente minha abstinência de álcool até o Natal. Um feito inédito para mim. Nunca havia imposto a mim mesma uma restrição por um período tão longo.

Sempre adorei drinks, lançamentos de bebidas e a descoberta de sabores alcoólicos inusitados. É uma herança afetiva que precisa ser observada com atenção, porque a linha entre o prazer e o vício é, de fato, muito tênue. Estender a abstinência foi, para mim, uma forma honesta de investigar se eu seria capaz de atravessar momentos sociais, celebrações e encontros sem a necessidade do brinde.

Os meses passaram e não, não ficou mais fácil. Na verdade, minha maior motivação era perceber que, a cada dia, eu me aproximava do fim do propósito. O mais curioso é que, mesmo em abstinência, não alterei minha rotina social. Continuei convivendo com meus amigos, que me ofereciam as bebidas mais incríveis afinal, eles são como eu: perdem os amigos, mas não perdem a piada. Ainda assim, segui firme. Com desconforto, mas sem falhar.

O aprendizado mais simbólico talvez seja este: meu pedido ainda não foi atendido. Não houve, até agora, a “recompensa” concreta pelo sacrifício etílico. Mesmo assim, posso afirmar com convicção que algo essencial foi transformado. Hoje, sei que a bebida é uma companhia opcional e não essencial como durante tantos anos acreditei que fosse.

Confesso que, após o período de abstinência, houve exageros nas celebrações, quase como uma tentativa de materializar a saudade acumulada. Mas passado o fim de ano, percebo que minha relação com o álcool já não ocupa o mesmo lugar. Sinto-me menos dependente, e isso me traz uma felicidade serena, quase silenciosa.

Como ser livre que sou, entrar em modo de restrição ou abstinência me causa profundo desconforto. E talvez seja justamente aí que mora o aprendizado mais potente, de aprender a lidar com o desconforto também faz parte do processo. Por isso, jejuar independentemente de religião, crença ou valor conduz inevitavelmente ao autoconhecimento.

O que eu aprendi com o jejum?

Que nem toda renúncia precisa gerar recompensa imediata.
Que o desconforto revela verdades que o conforto esconde.
Que autocontrole não é prisão, é escolha.

E que liberdade, às vezes, é simplesmente descobrir que você pode, mas não precisa.

Maíra Pessoa Jornalista| criadora do Elas &Eu| Mulher em Construção. Comunicação que informa, provoca e acolhe.