A dor que não respeita a ordem da vida

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A dor da partida de um filho para os pais sempre será precoce. Não importa se esse filho acabou de nascer ou se já era adulto, porque partimos da ideia de que o fluxo natural da vida determina que filhos enterrem seus pais. No entanto, a vida não é linear, tampouco pedagógica, e essa clareza racional raramente se sustenta quando a perda acontece de verdade.

Além disso, o ser humano não é preparado para enfrentar o luto de forma plena. Cada pessoa se defende como consegue, com os recursos emocionais que tem naquele momento, e isso não é fraqueza, é sobrevivência.

Recentemente, a partida do bebê David Benedito, com apenas 20 dias de vida, filho do prefeito de Manaus, David Almeida, e da primeira-dama Izabelle Fontana Almeida, comoveu a cidade. Ainda bem. A empatia coletiva é um sinal de humanidade preservada.

Contudo, é fundamental lembrar que a dor vivida por essa família, apesar de atravessar o espaço público, não difere da dor de tantos outros casais que enfrentam a perda de um filho no início da vida. O luto perinatal e neonatal, como define a literatura científica, é uma das formas mais complexas de luto, justamente porque envolve não apenas a perda concreta, mas também a frustração abrupta de um projeto, de uma identidade em construção e de um futuro imaginado.

A ausência do filho e o sonho interrompido geram impactos profundos e absolutamente singulares. Ainda assim, o olhar mais cuidadoso precisa recair sobre essa jovem mãe.

O puerpério, do ponto de vista médico e psicológico, já é reconhecido como um período de vulnerabilidade. O corpo passa por um processo intenso de reorganização fisiológica, com involução uterina, alterações hormonais severas, especialmente a queda brusca de estrogênio e progesterona, além de oscilações emocionais que podem favorecer quadros de ansiedade, depressão e desorganização psíquica.

Quando esse processo acontece sem o bebê, o risco de sofrimento mental se intensifica. Estudos indicam que mães que vivenciam perdas neonatais apresentam maior probabilidade de desenvolver luto complicado, depressão pós-parto e sintomas de estresse pós-traumático. Ainda assim, essa dor não pode ser apressada, explicada ou silenciada.

Se eu fosse amiga da Izabelle neste momento, sabe o que eu diria?

Nada. Absolutamente nenhuma palavra.

Porque não existe frase capaz de oferecer o conforto que ela precisará construir a partir de si mesma. Nem mesmo o marido, por mais presente e amoroso que seja, poderá acessar esse lugar interno. Esse espaço não é de fala, é de escuta. E a escuta precisa respeitar o protagonismo de quem sofre.

Não atravessem, nem usurpem, tampouco tentem preencher o vazio com discursos prontos que apenas aliviam quem fala. O silêncio respeitoso, quando nasce da empatia, também é uma forma profunda de cuidado.

Acolham essa mãe, porque mesmo sem a presença física do filho, ela já se tornou mãe. E, como quem ama além da matéria, ela já padece no paraíso, carregando no corpo e na alma um vínculo que não foi interrompido pela ausência, apenas transformado.

O deserto que essa mulher atravessa, assim como tantas outras mulheres atravessam, independentemente de classe social ou estrutura, exige algo que vai além da resistência. Exige ressignificação.

A ciência do luto já reconhece que perdas dessa natureza não são superadas, mas integradas à história de vida. A partida de um filho é, de fato, uma amputação permanente na existência de um casal. A ausência não se fecha, aprende-se a viver ao redor dela.

David Benedito sempre será o primeiro filho. Seus 20 dias de vida não diminuem sua existência, nem apagam sua importância. A memória não se mede em tempo, se mede em vínculo, e esse vínculo será honrado.

Falar sobre isso com respeito, empatia e verdade não reabre feridas. Pelo contrário, ajuda a sociedade a parar de romantizar o sofrimento silencioso das mulheres e a compreender que algumas dores não pedem solução, pedem presença.

Maíra Pessoa Jornalista| criadora do Elas &Eu |Mulher em Construção. Comunicação que informa, provoca e acolhe.