Cartão vermelho para o machismo: respeito não é opcional

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Em espaços historicamente ocupados por homens, o machismo estrutural ainda encontra brechas para se manifestar. No futebol, isso se revela com frequência. E foi o que aconteceu no último sábado (21/02).

Após a derrota do Red Bull Bragantino para o São Paulo Futebol Clube pelo Campeonato Paulista, o zagueiro Gustavo Marques questionou a escalação da árbitra Daiane Muniz. Ao afirmar que não deveriam colocar “uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”, ele não apenas criticou a arbitragem, mas associou competência ao gênero.

A declaração foi pública e carregada de um preconceito que ainda persiste em muitos ambientes.

Horas depois, o jogador se retratou nas redes sociais. Disse que estava frustrado, reconheceu o erro e pediu desculpas. Embora o pedido seja um passo necessário, ele não elimina o impacto das palavras, especialmente quando atingem não só uma profissional, mas todas as mulheres que ocupam espaços de liderança.

Na segunda-feira (23/02), o clube anunciou multa de 50% do salário do atleta e sua exclusão do próximo jogo. O valor será destinado à ONG Rendar, que apoia mulheres em situação de vulnerabilidade. Além disso, a Federação Paulista de Futebol classificou a fala como machista e informou que encaminhará o caso à Justiça Desportiva.

Enquanto as instituições se posicionam, Daiane Muniz segue exercendo sua função. No próximo domingo, ela apita Palmeiras x São Paulo. E isso diz muito. Porque sua trajetória foi construída com formação, preparo e desempenho técnico — critérios que deveriam ser os únicos relevantes.

Portanto, a discussão vai além de um episódio isolado. Trata-se de enfrentar uma lógica que ainda tenta hierarquizar pessoas com base no gênero, colocando em dúvida a capacidade feminina antes mesmo da análise objetiva dos fatos.

Não é apenas sobre futebol. É sobre cultura, equidade e responsabilidade coletiva.

Mulheres não ocupam espaços por concessão. Ocupam por mérito. E não precisam reiteradamente provar o que já demonstraram na prática.

Se queremos ambientes mais justos, precisamos agir com coerência. Isso significa questionar discursos, apoiar posicionamentos firmes e recusar a naturalização do preconceito.

O respeito não pode ser opcional.

E, diante disso, vale refletir: que tipo de sociedade estamos ajudando a construir com nossas palavras e atitudes?

Maíra Pessoa Jornalista| criadora do Elas &Eu |Mulher em Construção. Comunicação que informa, provoca e acolhe.