Conquistamos o voto. Ainda explicamos o não.

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Março chega todos os anos com flores, discursos e homenagens ao Dia Internacional das Mulheres. É um momento de lembrar conquistas que, hoje, parecem naturais, embora tenham sido resultado de décadas de luta.

As mulheres conquistaram o direito ao voto. Passaram a trabalhar fora de casa. Também deixaram de depender da autorização do marido para abrir uma conta bancária ou tomar decisões sobre a própria vida.

Parece distante, mas não faz tanto tempo assim.

Durante séculos, a autonomia feminina foi tratada como exceção. No entanto, pouco a pouco, ela virou direito. E o século XXI prometia consolidar esse caminho, ainda mais em um mundo conectado, digital e aparentemente mais consciente.

Mesmo assim, a realidade insiste em lembrar que progresso não é linha reta.

Em pleno mês de celebração das conquistas das mulheres, uma tendência perturbadora ganhou espaço no TikTok. A chamada trend “caso ela diga não” mostrou jovens simulando chutes, socos, facadas e até tiros contra manequins que representariam mulheres.

O comando é simples, cruel e irônico. Se ela disser não, a resposta é  violência.

Os vídeos circularam justamente a partir do dia 8 de março. Ou seja, enquanto parte do mundo falava de direitos, outra parte transformava a rejeição feminina em motivo de agressão performática para ganhar curtidas.

Diante da repercussão, o Ministério da Justiça e Segurança Pública deu cinco dias para que o TikTok Brasil explique quais medidas adotou para conter a circulação desse conteúdo. A plataforma terá de detalhar como funcionam seus sistemas de moderação automática, a revisão humana e o monitoramento de tendências que possam estimular violência.

Além disso, deverá informar se os perfis responsáveis pelos vídeos foram monetizados ou receberam pagamento pelo alcance gerado.

A investigação já começou. A Polícia Federal abriu inquérito para analisar as postagens e solicitar a derrubada dos perfis envolvidos.

Enquanto isso, o Ministério das Mulheres e o próprio Ministério da Justiça divulgaram nota de repúdio e pediram apuração rápida e transparente.

O motivo é evidente. No Brasil, a violência de gênero não é teoria nem exagero estatístico. Em média, o país registra quatro feminicídios e cerca de dez tentativas de feminicídio por dia .E esses números podem ser subnotificados.

Por isso, transformar agressão em entretenimento digital não é apenas mau gosto. É perigoso.

Depois de tantas décadas lutando para garantir o direito de votar, trabalhar, estudar e existir com autonomia, ainda precisamos lembrar que dizer não é um direito básico.

Talvez esse seja o retrato mais fiel do nosso tempo. Vivemos na era da inteligência artificial, dos algoritmos e das redes globais. Porém, ao mesmo tempo, ainda enfrentamos velhos padrões de misoginia que apenas mudaram de cenário.

Antes estavam nas ruas e nos lares. Agora também aparecem nas telas.

E, diante disso, fica uma pergunta inevitável.

Se o século XXI ainda precisa explicar que a recusa de uma mulher não pode virar motivo de violência, quanto progresso realmente fizemos e quanto ainda falta fazer?

Maíra Pessoa Jornalista| criadora do Elas &Eu |Mulher em Construção. Comunicação que informa, provoca e acolhe.