No próximo domingo, 8 de março, mulheres ocuparão as ruas de Manaus para denunciar uma violência que insiste em atravessar corpos e territórios. A caminhada Feminicídio e as violências que o Estado não vê começa às 15h, com concentração na Praça da Polícia, no centro da cidade.
A mobilização é convocada pela Articulação de Mulheres do Amazonas, que integra a Articulação de Mulheres Brasileiras. Ao reunir lideranças de diversos movimentos, o ato fortalece uma luta feminista, antirracista e anticapitalista na Amazônia.
Segundo a ativista Socorro Papoula, da coordenação da AMA, o Brasil enfrenta uma verdadeira epidemia de feminicídio. Por isso, mais do que marcar presença, a caminhada exige respostas concretas do poder público.
Números que doem
O Brasil permanece entre os países que mais matam mulheres no mundo. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, o país registrou 1.467 feminicídios em 2022, o maior número desde a criação da lei, em 2015. Na prática, quatro mulheres foram assassinadas por dia por razões de gênero.
Além disso, os dados mais recentes mantêm o alerta aceso. A maioria das vítimas morre dentro de casa. Frequentemente, o agressor é o companheiro ou ex-companheiro. Portanto, não falamos de episódios isolados. Falamos de uma estrutura violenta que se repete, se alimenta da desigualdade e encontra respaldo na omissão do Estado.
Símbolos que resistem
Durante a marcha, a AMA distribuirá travessas coloridas inspiradas nas flores usadas por Frida Kahlo. A artista mexicana transformou dor em arte e fez da própria imagem um ato político.
Ela rompeu padrões estéticos e sociais. Assumiu suas dores. Defendeu suas convicções. Assim, as flores em seus cabelos tornaram-se símbolo de força, identidade e autonomia. Ao trazer esse elemento para a mobilização, a AMA afirma que resistir também significa celebrar cultura, memória e potência feminina.
Educar para romper ciclos
A assistente social Áurea Lúcia Leitão, que já atuou como conselheira tutelar em Manaus, defende que o enfrentamento à violência precisa começar nas escolas. Segundo ela, é urgente dialogar com adolescentes e jovens, sobretudo porque cresce o número de agressores cada vez mais novos.
Ela reforça que a educação quebra ciclos familiares marcados pela violência. Ensinar que agressão não é normal, que mulheres devem ser respeitadas e que atos violentos geram responsabilização é parte fundamental dessa transformação.
Portanto, o debate não pode ficar restrito às ruas em datas simbólicas. Ele precisa atravessar salas de aula, comunidades e políticas públicas permanentes.
Marchar é agir
A mobilização do 8 de março vai além da celebração. Ela denuncia omissões. Além disso, cobra responsabilidade. Sobretudo, reafirma o direito à vida.
Quando mulheres ocupam as ruas, elas rompem o silêncio que encobre estatísticas frias. Transformam números em histórias. E convertem dor em ação coletiva.
Cada mulher que marcha carrega flores na cabeça. Entretanto, carrega também memória, coragem e esperança. Porque caminhar, nesse contexto, não é apenas um gesto simbólico. É um ato político. É resistência em movimento.










