Em meio à crescente oferta de produtos e promessas “milagrosas” para emagrecimento rápido, ganha popularidade a expressão “caneta emagrecedora” — termo popular usado para se referir a medicamentos injetáveis à base de análogos do GLP-1, como semaglutida e tirzepatida. Essas substâncias foram originalmente desenvolvidas para o tratamento do diabetes tipo 2 e, posteriormente, aprovadas por agências reguladoras, como a Anvisa, para o tratamento da obesidade e do sobrepeso associado a comorbidades, sempre sob prescrição médica e acompanhamento especializado.
Apesar das indicações clínicas bem definidas, o uso indiscriminado e sem supervisão desses medicamentos tornou-se um fenômeno crescente, especialmente entre mulheres. Estudos na área de saúde pública e comportamento apontam que a busca por resultados rápidos e estéticos está diretamente relacionada à pressão social sobre o corpo feminino, aumentando a exposição a riscos físicos e emocionais.
A empresária Felipa Passos relata que perdeu 15 quilos em um mês após iniciar o uso de Mounjaro (tirzepatida), medicamento indicado para controle glicêmico e, em contextos específicos, para perda de peso.
“Depois dos 40, é fácil ganhar peso e um pesadelo perder. Mesmo com restrição alimentar e prática regular de exercícios, eu não via resultado. Minha médica então recomendou o uso semanal do medicamento. Tive alguns efeitos colaterais, mas o resultado resgatou a minha autoestima”, relata Felipa.
A endocrinologista Leda Melo chama atenção para os riscos da automedicação e da banalização do acesso a esse tipo de fármaco.
Segundo a especialista, trata-se de uma medicação de uso controlado, que deve ser prescrita e acompanhada por profissionais capacitados. Ela explica que nem todos os pacientes são elegíveis para esse tipo de tratamento e que a resposta ao medicamento é individual, podendo variar desde ausência de efeitos adversos até sintomas gastrointestinais intensos, alterações metabólicas e impacto na saúde mental. Por isso, a médica reforça que não vale colocar a saúde em risco em troca de resultados rápidos.
Entre o corpo ideal e o corpo real
A psicóloga Fernanda Arantes destaca que a pressão estética não atinge homens e mulheres da mesma forma. Segundo ela, mulheres são historicamente mais cobradas em relação à aparência, juventude e padrão corporal, o que contribui para maior adesão a métodos invasivos ou medicamentosos como tentativa de alcançar validação social.
Nesse contexto, explica a profissional, o corpo passa a ser visto como um projeto constante de correção, o que pode gerar ansiedade, frustração e distorção da imagem corporal.
Especialistas em saúde mental e comportamento apontam que estratégias menos invasivas, baseadas em evidências científicas, apresentam menor risco e resultados mais sustentáveis ao longo do tempo.
Entre as principais recomendações estão:
Mudanças de hábitos alimentares com acompanhamento profissional – Um plano alimentar individualizado, sem restrições extremas, contribui para a regulação metabólica, prevenção de deficiências nutricionais e manutenção da saúde a longo prazo.
Prática regular de atividade física – A combinação de exercícios aeróbicos, treinamento de força e alongamento favorece o equilíbrio hormonal, o controle do peso corporal e a melhora da autoestima, além de benefícios cardiovasculares comprovados.
Apoio psicológico e práticas de atenção plena (mindfulness) – Abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental auxiliam na redução da ansiedade, na construção de uma relação mais saudável com o corpo e na diminuição do impacto da pressão estética externa.
Essas estratégias priorizam segurança, saúde emocional e sustentabilidade, contrapondo-se a métodos invasivos que, embora prometam resultados rápidos, podem acarretar consequências físicas e psicológicas significativas.










