Criada em 2014, a Campanha Janeiro Branco se consolidou como o maior movimento de promoção da saúde mental do Brasil e do mundo. Em 2026, a campanha chega mantendo um alerta que já se repete há alguns anos — e que os números confirmam. O Brasil lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com cerca de 18,6 milhões de pessoas afetadas, o que representa 9,3% da população.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o país é o mais ansioso do mundo, o segundo mais deprimido das Américas e o quarto mais estressado do planeta. Não por acaso, para 52% dos brasileiros, a saúde mental já é considerada o principal problema de saúde do país.
Em meio a dados tão expressivos, o Janeiro Branco propõe uma pausa necessária para refletir e cuidar, reforçando que saúde mental não é tendência, é urgência. Para a psicóloga Natália Ventura, o cenário pode ser ainda mais grave, já que a saúde mental segue sendo negligenciada no país. Estudos recentes indicam que mais de 70% das pessoas com depressão não recebem tratamento, mesmo quando há indicação clínica.
A especialista alerta que a falta de cuidado tem consequências diretas e coletivas. “Essa conta sempre chega. Sem tratamento adequado, o colapso pode acontecer tanto com a própria pessoa quanto afetar o outro. Isso se reflete em mais intolerância, violência e sofrimento nas relações sociais”, destaca.
Natália reforça que a transformação coletiva começa, necessariamente, pela mudança individual é um movimento que precisa ocorrer de dentro para fora. Segundo a psicóloga, o modelo de vida atual estimula um ritmo constante de alta performance e aceleração, no qual parar é visto como fracasso.
“Vivemos em uma lógica acelerada, em que quem não acompanha o ritmo corre o risco de ser deixado para trás. Ninguém quer ser o último da corrida, e esse medo alimenta um ciclo viciante, exaustivo e adoecedor”, alerta.
Com 25 anos, Carla Silva foi diagnosticada com síndrome do pânico e está em tratamento há três anos. Hoje, relata avanços significativos no controle dos sintomas, mas admite que o medo de recaídas ainda faz parte do processo, uma realidade comum em transtornos de ansiedade, segundo a literatura científica.
“O diagnóstico foi tardio, muito por eu não ter respeitado meus próprios limites. Só procurei ajuda quando perdi minha autonomia. Durante as crises, fiquei completamente isolada, sem conseguir trabalhar, sair de casa ou manter minha rotina”, relata.
Carla destaca que o tratamento, que inclui acompanhamento psicológico contínuo e a adoção de novos hábitos de vida foi decisivo para sua recuperação. Segundo ela, o processo exige constância e atenção permanente.
“A melhora vem, mas o cuidado precisa continuar. Hoje entendo que pedir ajuda não é fraqueza, é sobrevivência. E esse autocuidado precisa ser de janeiro a janeiro. Quando não conseguir sozinho, peça ajuda”, completa.
Avanço Importante
A partir de maio de 2026, com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que define as regras gerais de segurança e saúde no trabalho no Brasil, as empresas passarão a ser avaliadas quanto à identificação e prevenção de riscos psicossociais no ambiente de trabalho, como excesso de pressão, sobrecarga, assédio e condições que afetam a saúde mental dos trabalhadores.
Ressignificando o post-it como símbolo do cuidado
Em 2026, o Janeiro Branco escolhe o post-it como símbolo da campanha. Antes ligado à pressa, às cobranças e aos prazos, o objeto ganha um novo significado: um lembrete simples e essencial para pausar, respeitar limites, pedir ajuda e cuidar da saúde mental.










