Lançada há poucos meses, já no topo das músicas mais tocadas e com tudo para se tornar o hit do Carnaval de 2026, The Fate of Ophelia, de Taylor Swift, surge como mais do que um sucesso pop. A canção dialoga com uma ideia antiga, quase ancestral, de que a mulher precisa ser salva pelo amor de um homem para que sua história faça sentido. O refrão é moderno, mas o enredo é bem conhecido entre nós.
Em Hamlet, Shakespeare constrói Ofélia como a jovem que ama com devoção, obedece sem questionar e silencia até não caber mais em si. Ela existe em função do outro, ajustando emoções, desejos e identidade para não desagradar. Séculos depois, a estética mudou, mas o roteiro permanece inquietantemente familiar: saem os castelos, entram as timelines; saem as cartas, entram as mensagens visualizadas e nunca respondidas. Ninguém quer ser Ofélia, mas muitas ainda esperam, consciente ou inconscientemente, por alguém que as valide.
Quando uma música explicita o clássico destino de Ofélia em tempos modernos, ela deixa de falar apenas de amor perdido e passa a narrar um colapso emocional silencioso, aquele descrito pela psicologia como exaustão afetiva. Estudos sobre socialização feminina mostram que mulheres são ensinadas desde cedo a priorizar vínculos, suprimir conflitos e confundir amor com autoabandono.
Sentir demais vira excesso. Precisar, fraqueza. Questionar, risco.
Shakespeare escrevia tragédias em versos; Taylor transforma o mesmo abismo em refrões que grudam e, ironicamente, desfaz de Ofélia, ao ter o amor que ela nunca teve. Mas a pergunta incômoda permanece: quantas mulheres ainda acreditam que amar bonito é obrigação, que sofrer em silêncio é sinal de maturidade emocional e que delicadeza é quase um contrato social feminino? Hoje, a queda não acontece à beira de um rio, mas sob filtros: selfies bem editadas, stories felizes e uma tristeza que precisa caber em 15 segundos para não incomodar o algoritmo e muito menos a audiência.
A boa notícia é que algo começa a mudar. A mulher contemporânea já não quer enlouquecer para ser escutada. Não quer desaparecer para provar profundidade emocional. Quer existir inteira com desejo, raiva, ambivalência e voz. A música pop, nesse contexto, funciona quase como uma catarse coletiva: nomeia dores, legitima sentimentos e rompe, ainda que lentamente, o ciclo do silêncio.
Talvez Shakespeare observasse tudo com um sorriso torto, quase irônico, ao ver sua personagem coadjuvante renascer em playlists mundial não como heroína romântica, mas como um alerta. Não soubemos acolher Ofélia quando ela precisava existir. Quem sabe agora, mais atentos, torçamos para que as Ofélias de hoje não afundem, que saiam da água, enxuguem o vestido e, pela primeira vez, contem a própria história.
E você, já ajudou alguma Ofélia hoje? Elas ainda existem ou estamos, finalmente, aprendendo a salvá-las de dentro para fora?
Maíra Pessoa Jornalista| criadora do Elas &Eu| Mulher em Construção. Comunicação que informa, provoca e acolhe.










