Por gerações passadas e repassadas, nós, mulheres, aprendemos que existe pouco espaço no topo e que, por isso, seria necessário competir entre nós. Esse roteiro não surgiu do nada.
Ele foi construído socialmente em ambientes onde o poder, o reconhecimento e os recursos sempre estiveram concentrados nas mãos de poucos, quase sempre homens.
Assim, em vez de questionar a estrutura que limita, muitas mulheres acabam disputando migalhas de validação, status ou aceitação.
Mais do que repetir esse padrão, é preciso incomodar. E esse incômodo começa dentro da gente. Do ponto de vista social e econômico, a lógica é clara. A rivalidade feminina favorece sistemas desiguais.
Enquanto mulheres se comparam, se deslegitimam ou se atacam, menos energia é direcionada para pautas urgentes como igualdade salarial, ocupação de espaços de liderança e construção de políticas públicas eficazes.
Isso não é opinião, é fato. Pesquisas mostram que ambientes profissionais que estimulam a competição tóxica reduzem a cooperação e enfraquecem os resultados coletivos. Além disso, contextos fragmentados mantêm hierarquias intactas e dificultam mudanças reais. Nada disso acontece por acaso.
Também é curioso perceber como a rivalidade feminina costuma ser celebrada como sinal de personalidade forte, enquanto a união é tratada como ameaça.
Mulheres seguras são rotuladas como intimidantes. Mulheres que se apoiam são vistas como panelinhas.
A ironia é simples e reveladora. Quando mulheres se unem, resultados aparecem. Quando brigam entre si, o sistema agradece em silêncio.
Romper com a rivalidade não significa concordar com tudo nem apagar diferenças. Significa entender que diversidade de caminhos não precisa virar disputa. Significa trocar comparação por colaboração e competição por consciência crítica. Afinal, crescer junto amplia o espaço e fortalece todas.
Faça por você e faça por todas nós. Ocupe seu espaço com competência e legitimidade, apoie outras mulheres e reconheça quem caminha ao seu lado.
Em tempos de Carnaval, voltou a circular um roteiro antigo e previsível. A suposta rivalidade entre Paolla Oliveira e Virginia Fonseca ganhou força depois que a atriz participou de um ensaio como madrinha de honra da bateria da Grande Rio, cargo especialmente criado para ela. Mais uma vez, tentaram colocar uma mulher contra a outra, como se não houvesse espaço para histórias diferentes coexistirem.
Ao comentar o assunto, Paolla foi direta ao ponto. Disse que a obsessão em criar rivalidade feminina ainda choca e reforçou que a escola tem uma rainha que está presente, desempenhando seu papel com dedicação.
Segundo ela, mais do que alimentar comparações, é preciso que as próprias mulheres combatam essa lógica. A atriz, inclusive, segue participando de eventos na quadra da escola, mostrando que respeito e continuidade não se anulam.
O episódio expõe um padrão conhecido. Sempre que uma mulher ocupa um espaço de visibilidade, surge a tentativa de transformar a mudança em disputa pessoal. Enquanto isso, questões mais relevantes ficam em segundo plano. No fim, a pergunta permanece atual e necessária.
Quem realmente ganha quando insistem em transformar mulheres em rivais?
Maíra Pessoa Jornalista| criadora do Elas &Eu |Mulher em Construção. Comunicação que informa, provoca e acolhe.











