No final do século XIX, em uma Viena marcada pelo rigor científico e pelo conservadorismo moral, corpos femininos começaram a contar histórias que a medicina não conseguia explicar. Mulheres diagnosticadas como “histéricas” apresentavam paralisias, desmaios, dores persistentes e lapsos de memória sem qualquer lesão orgânica identificável. Para a ciência da época, esses sintomas eram vistos como fraqueza, exagero ou desvio moral. Foi nesse cenário que Sigmund Freud, médico formado pela Universidade de Viena e especializado em neurologia, passou a desconfiar de que o sofrimento humano não se limitava ao corpo, mas havia algo na mente que insistia em falar.
Essa intuição ganhou força quando Freud esteve em Paris, entre 1885 e 1886, estudando com Jean-Martin Charcot, um dos maiores especialistas em histeria. Ao observar o uso da hipnose, Freud percebeu que os sintomas podiam ser provocados e aliviados por sugestões psíquicas. O impacto foi decisivo: se a mente era capaz de produzir sintomas físicos, então a histeria não era uma farsa nem uma doença imaginária, mas uma expressão legítima de conflitos internos. A experiência francesa abriu caminho para uma mudança radical na forma de compreender o adoecimento psíquico.
De volta a Viena, Freud passou a aplicar a hipnose em seus atendimentos, mas logo notou algo ainda mais transformador. Quando as pacientes falavam sobre experiências traumáticas e emoções reprimidas, os sintomas diminuíam. Essa constatação se aprofundou com a parceria com Josef Breuer, especialmente no atendimento de mulheres cujos relatos revelavam perdas, desejos frustrados e sofrimentos silenciados. A chamada “cura pela fala” mostrava que os sintomas eram uma linguagem do psiquismo — uma tentativa do inconsciente de se expressar quando a palavra havia sido interditada.
Dessa prática surgiu o método catártico, no qual a verbalização das experiências dolorosas permitia a liberação de afetos reprimidos. O trabalho conjunto de Freud e Breuer resultou na obra Estudos sobre a Histeria (1895), considerada o ponto de partida da psicanálise. Ali, Freud demonstrou que os sintomas histéricos não eram aleatórios, mas organizados em torno de lembranças e conflitos inconscientes. Embora o termo “histeria” hoje seja superado, muitos desses quadros correspondem, segundo a psicologia contemporânea, a transtornos dissociativos e somatoformes, o que reforça a relevância clínica das observações iniciais de Freud.
Com o avanço de suas pesquisas, Freud passou a sustentar que os conflitos psíquicos estavam profundamente ligados à sexualidade, inclusive à sexualidade infantil — ideia que gerou forte resistência e levou ao rompimento com Breuer. Abandonando a hipnose, Freud desenvolveu uma técnica ainda mais inovadora: a associação livre. Ao permitir que o paciente falasse sem censura, enquanto o analista mantinha uma atenção flutuante, tornou-se possível acessar conteúdos inconscientes de forma mais consistente. A publicação de A Interpretação dos Sonhos, em 1900, consolidou essa virada ao apresentar o inconsciente como um sistema ativo, estruturante da vida psíquica.
Assim, a psicanálise nasceu menos de um ato médico e mais de um gesto ético: o de escutar. Ao levar a sério a fala de mulheres que a sociedade preferia calar, Freud inaugurou uma nova ciência do sujeito, baseada na ideia de que o sofrimento tem sentido e pode ser compreendido. Mais de um século depois, o legado do início da psicanálise permanece atual justamente por sua origem: uma prática fundada na palavra, na escuta e no reconhecimento de que aquilo que não pode ser dito encontra, no corpo e nos sintomas, uma forma de existir.










