Violência Vicária: Quando o agressor usa o filho para punir a mãe

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Já passou da hora de falarmos com clareza sobre violência vicária. Ela acontece quando o agressor atinge os filhos para ferir emocionalmente a mãe, sobretudo após o fim de uma relação. Infelizmente, os noticiários mostram que esses casos se tornaram mais frequentes.

Na maioria das vezes, o agressor não age por impulso isolado. Ele sabe onde dói mais e age com intenção. Assim, deixa de enxergar a criança como sujeito de direitos e passa a usá-la como instrumento de vingança.

Pesquisadores da psicologia forense e dos estudos sobre violência de gênero explicam que esse comportamento surge quando o homem não aceita a autonomia da mulher após a separação. Então, ele tenta recuperar o controle por meio de ameaças, manipulação, negligência e, em situações extremas, até pelo assassinato dos próprios filhos.

Além disso, estudos sobre feminicídio indicam que o período de separação aumenta o risco para mulheres e crianças. Por isso, especialistas alertam que a violência vicária raramente começa no ato extremo. Antes disso, surgem sinais claros.

Entre eles aparecem chantagens emocionais, descumprimento de acordos de convivência, uso dos filhos para provocar medo, exposição constante a conflitos e ameaças veladas. Quando familiares, instituições ou a própria sociedade minimizam esses comportamentos, o agressor se sente autorizado a avançar.

Como podemos contribuir para diminuir essa violência

Precisamos fortalecer a rede de proteção. Delegacias especializadas, varas de família, conselhos tutelares e serviços de assistência social devem atuar de forma integrada. Quando profissionais analisam o histórico de ameaças e comportamentos controladores, conseguem identificar riscos antes que a violência escale.

Além disso, devemos levar qualquer ameaça a sério. Ameaçar filhos nunca é desabafo. É sinal de risco real. Amigos, familiares e profissionais precisam registrar e comunicar comportamentos que envolvam intimidação ou manipulação das crianças.

Também é fundamental que decisões judiciais considerem avaliações técnicas de risco. O direito de convivência não pode se sobrepor ao direito à vida e à segurança. Sempre que houver indícios de violência, a proteção deve vir em primeiro lugar.

Ao mesmo tempo, investir em educação emocional e igualdade de gênero ajuda a prevenir novos ciclos. Quando ensinamos que vínculo não é posse e que frustração não autoriza violência, mudamos mentalidades desde cedo.

Por fim, o Estado precisa responsabilizar o agressor de forma firme. A punição adequada e o acompanhamento psicológico rompem ciclos e deixam claro que usar filhos como arma constitui grave violação de direitos.

Nenhuma criança nasce para mediar conflitos. Nenhuma mãe deve viver sob a ameaça de perder um filho por vingança. Quando tratamos a violência vicária como caso isolado, ignoramos sua raiz estrutural.

Que tipo de sociedade permite que filhos virem arma de vingança?

 

Maíra Pessoa Jornalista| criadora do Elas &Eu |Mulher em Construção. Comunicação que informa, provoca e acolhe.