Etarismo feminino um problema estrutural que ainda limita mulheres

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Ao longo das últimas décadas, as mulheres conquistaram espaço na educação, no mercado de trabalho e nos espaços de decisão. No entanto, enquanto avançam, enfrentam uma barreira menos visível, porém profundamente enraizada, o etarismo.

Esse fenômeno, que consiste na discriminação baseada na idade, atinge homens e mulheres, mas impacta de forma mais intensa o público feminino, pois se entrelaça com padrões estéticos, expectativas sociais e desigualdades históricas de gênero.

Desde cedo, a sociedade estabelece um padrão implícito para as mulheres. Há um tempo considerado ideal para estudar, outro para construir carreira, casar, ter filhos e, em seguida, um silencioso empurrão para a invisibilidade. Assim, quando ultrapassam determinadas faixas etárias, muitas passam a ser vistas como “fora do tempo”, mesmo que estejam no auge de sua experiência, capacidade e produtividade. Essa lógica, além de ultrapassada, compromete direções e restringe oportunidades.

No mercado de trabalho, por exemplo, os efeitos são concretos. Dados de organismos internacionais como a Organização Internacional do Trabalho indicam que mulheres acima dos 40 anos enfrentam mais dificuldade de recolocação do que homens da mesma idade. Além disso, pesquisas apontam que elas são frequentemente preteridas em processos seletivos, especialmente em setores que valorizam juventude associada à inovação, ignorando que experiência também é um ativo estratégico. Dessa forma, cria-se um ciclo de exclusão que reduz renda, autonomia e perspectivas de crescimento.

Ao mesmo tempo, o etarismo feminino se manifesta de maneira simbólica e cotidiana. A pressão estética reforça a ideia de que envelhecer é um problema a ser corrigido. Rugas, cabelos brancos e mudanças naturais do corpo são tratados como falhas, e não como marcas de uma vida vivida. Consequentemente, muitas mulheres internalizam essa cobrança, o que impacta autoestima, saúde mental e a forma como se posicionam socialmente.

Entretanto, é necessário romper com essa narrativa. Envelhecer não deve ser visto como perda, mas como acúmulo de repertório, visão crítica e maturidade. Em vez de limitar, a idade amplia possibilidades. Quando a sociedade insiste em desvalorizar mulheres maduras, ela não apenas perpetua desigualdades, mas também desperdiça talento, liderança e conhecimento.

Além disso, o combate ao etarismo feminino exige ação coletiva. Empresas precisam revisar critérios de contratação e promoção, valorizando diversidade etária como um diferencial competitivo.

A mídia, por sua vez, deve expandir representações, mostrando mulheres reais em diferentes fases da vida, com protagonismo e complexidade. Já no âmbito individual, é fundamental questionar padrões internalizados e reconhecer o valor que cada fase carrega.

Portanto, discutir etarismo feminino não é apenas uma pauta identitária, mas uma questão estrutural. Trata-se de cobrir que mulheres possam existir plenamente em todas as idades, sem serem reduzidas a estereótipos ou excluídas por critérios arbitrários. Afinal, o tempo não deveria ser um limite, mas um aliado na construção de caminhos mais livres, diversos e potentes.

Maíra Pessoa Jornalista| criadora do Elas &Eu |Mulher em Construção. Comunicação que informa, provoca e acolhe.