Aos 24 anos, Anjali Sardana está à frente da Pronto, uma plataforma de serviços domésticos que encontrou uma maneira incomum de aproximar o trabalho cotidiano do avanço da inteligência artificial. A empresa oferece um modelo no qual profissionais de limpeza utilizam câmeras vestíveis durante as atividades.
Com autorização de clientes e trabalhadoras, as imagens registram principalmente as mãos e a área imediata de trabalho, sem captação de áudio. Assim, uma atividade tradicionalmente associada ao cuidado da casa passa a produzir dados para o desenvolvimento de tecnologias capazes de compreender ações realizadas no mundo físico.
Mulheres do trabalho doméstico entram na economia dos dados
A proposta também mexe com a forma como o mercado enxerga o trabalho doméstico. As profissionais participantes recebem cerca do dobro do valor de uma tarefa convencional, de acordo com as informações divulgadas pela empresa.
Enquanto realizam a limpeza, elas também contribuem para uma base de dados voltada ao treinamento de sistemas de inteligência artificial e robótica. Dessa maneira, habilidades que durante muito tempo permaneceram invisíveis na economia formal passam a ganhar valor dentro de um setor tecnológico em rápida expansão.
O modelo, entretanto, abre uma discussão que vai além da inovação. A gravação dentro de residências envolve consentimento, privacidade e uso comercial de imagens. No programa chamado Pronto Verified, clientes e trabalhadoras precisam autorizar a captação.
Segundo a empresa, rostos e informações pessoais recebem tratamento para evitar a identificação antes que os vídeos sejam utilizados como dados de treinamento. A discussão ganha ainda mais relevância porque o material produzido em tarefas comuns pode ajudar máquinas a aprender movimentos, sequência de ações e interação com objetos.
Uma nova fronteira para o trabalho feminino
Avaliada em cerca de US$ 200 milhões, a Pronto afirma realizar mais de 50 mil serviços por dia e já ter captado aproximadamente US$ 60 milhões. O crescimento da empresa ocorre em um momento no qual a inteligência artificial avança para além das telas e passa a buscar dados sobre atividades físicas e rotinas reais.
Nesse cenário, Anjali Sardana chama atenção por aproximar um setor historicamente associado às mulheres de uma das áreas mais disputadas da tecnologia. A experiência também provoca uma pergunta importante sobre quem produz os dados que alimentam as máquinas e, principalmente, quem recebe por esse conhecimento.
A iniciativa mostra que a corrida pela inteligência artificial não acontece apenas em laboratórios, escritórios de tecnologia ou centros de pesquisa. Ela também pode estar dentro de uma cozinha, diante de uma pia ou durante a organização de uma casa.
Para as mulheres que atuam no trabalho doméstico, essa mudança pode representar uma oportunidade de reconhecimento econômico, mas exige regras claras para garantir autonomia, privacidade e remuneração justa.
A história de Anjali Sardana coloca essa discussão em evidência e lembra que, quando novas tecnologias avançam, também é preciso discutir quem está por trás dos dados que fazem essas máquinas aprenderem.











