A popularização das chamadas canetas emagrecedoras abriu uma discussão que ultrapassa a perda de peso. Para a pesquisadora Maria Luisa Jimenez Jimenez, o crescimento desse mercado também expõe como a sociedade atribui valores diferentes aos corpos.
Em estudo publicado em 2026 na revista Pensar a Prática, ela analisa esses medicamentos como parte de um cenário de medicalização do emagrecimento e discute como a valorização da magreza pode reforçar mecanismos de controle sobre os corpos, principalmente os femininos.
Quando a magreza ganha valor social
Nesse contexto, aparece a ideia de economia moral da magreza. O conceito ajuda a compreender por que emagrecer deixou de ser apenas uma questão relacionada à saúde para muitas pessoas e passou a representar também disciplina, beleza, sucesso e aceitação.
Paralelamente, os corpos gordos continuam enfrentando julgamentos e estigmas. Maria Luisa já pesquisa a gordofobia há anos e, em trabalhos anteriores, aborda como esse preconceito afeta especialmente mulheres em uma sociedade que privilegia determinado padrão corporal.
Racismo e gordofobia se cruzam
A pesquisadora também chama atenção para as desigualdades que atravessam essa experiência. Em estudo realizado com outras pesquisadoras, Maria Luisa analisou as relações entre racismo e gordofobia e mostrou como diferentes formas de discriminação podem se cruzar na construção da imagem e da experiência de corpos considerados fora do padrão.
Por isso, discutir emagrecimento exige olhar para as condições sociais que fazem algumas mulheres sofrerem uma pressão ainda maior para modificar seus corpos.
Medicamento não substitui cuidado
As canetas, entretanto, têm indicações clínicas e podem fazer parte do tratamento de pessoas que precisam delas. O alerta está no uso sem acompanhamento e motivado exclusivamente pela pressão estética.
No Brasil, a Anvisa determinou a retenção de receita para medicamentos agonistas de GLP-1, como semaglutida, liraglutida e tirzepatida, depois de identificar número elevado de eventos adversos relacionados ao uso fora das indicações aprovadas. Em 2026, a agência também reforçou medidas contra produtos irregulares e destacou riscos relacionados à procedência e ao controle de qualidade.
Uma conversa que precisa continuar
A discussão proposta por Maria Luisa coloca uma questão importante para as mulheres. Até que ponto o desejo de emagrecer nasce de uma necessidade de cuidado e até que ponto ele é alimentado pela ideia de que determinados corpos merecem mais reconhecimento? A resposta passa por saúde, acesso ao tratamento, autoestima e respeito à diversidade corporal.
Afinal, cuidar de si não deveria significar viver sob a obrigação permanente de caber em um único padrão de beleza.











