A Belle Époque amazonense, vivida entre o fim do século XIX e o início do século XX, marcou uma fase de intensas transformações urbanas. Manaus passou a contar com iluminação elétrica, sistemas modernos de abastecimento de água, bondes, avenidas largas e edifícios inspirados na arquitetura europeia.
Ao mesmo tempo, o crescimento impulsionado pela exportação da borracha atraiu milhares de pessoas de diferentes regiões do Brasil e do exterior em busca de oportunidades. Entre elas, estavam muitas mulheres.
Algumas chegaram acompanhando familiares. Outras desembarcaram sozinhas, motivadas pela expectativa de trabalhar como domésticas, costureiras ou comerciantes. Além disso, havia viúvas, mulheres abandonadas e migrantes que fugiam da pobreza. Brasileiras, indígenas, nordestinas e estrangeiras raramente apareciam nos registros oficiais. Na maioria das vezes, seus nomes surgiam apenas quando eram presas, agredidas ou vítimas de algum crime.
Sem rede de apoio, emprego estável ou condições de retornar à cidade de origem, muitas encontraram na prostituição uma forma de garantir a própria sobrevivência.
Muito além da imagem de luxo
Ao contrário da visão romantizada construída ao longo dos anos, a maioria dessas mulheres estava distante do glamour. Em geral, dividia pequenos quartos em pensões, trabalhava em estabelecimentos modestos ou circulava pelas proximidades do porto, onde havia intenso movimento de marinheiros, trabalhadores e viajantes.
Nesses pequenos espaços conviviam música, bebida e jogos. Entretanto, também eram frequentes os episódios de violência, exploração e vulnerabilidade.
Um dos principais símbolos da vida noturna da Belle Époque foi o Hotel Cassina, inaugurado em 1899 pelo empresário italiano Andrea Cassina. Considerado um dos empreendimentos mais sofisticados de Manaus, reunia hospedagem, salão de bailes, cassino e espaços de entretenimento frequentados por seringalistas, comerciantes, políticos e visitantes.
Com o passar dos anos, o local também ficou conhecido pela presença de prostitutas, tornando-se um retrato das contradições de uma cidade que buscava reproduzir costumes europeus enquanto mantinha profundas desigualdades sociais.
Foi justamente esse cenário que despertou o interesse do historiador Narciso Passos de Freitas. Na dissertação Nas Calçadas da Belle Époque Amazônica: comércio e tráfico de mulheres nos meretrícios de Manaus (1890–1920), o pesquisador analisou jornais, registros policiais e outros documentos da época. Como resultado, conseguiu identificar cerca de 300 mulheres ligadas aos meretrícios da cidade.
Entre elas estavam Balbina, Antonieta, Felícia, Laura, Joana, Luiza, Enedina, Sarah, Maria, Gaivota, Soulanger e Mulata. Hoje, esses nomes ajudam a reconstruir uma parte da história que permaneceu invisibilizada por mais de um século. Além disso, inspiraram produções contemporâneas, como o espetáculo Cabaré Chinelo, do Ateliê 23.
As vozes que resistiram ao esquecimento
Enquanto Manaus projetava ao mundo a imagem de uma cidade moderna e próspera, a realidade revelava outro cenário. Homens pertencentes às elites política e econômica frequentavam esses estabelecimentos sem sofrer exposição pública.
Em contrapartida, o julgamento recaía quase exclusivamente sobre as mulheres. Eram elas que tinham os nomes publicados nos jornais, eram alvo das operações policiais e acabavam responsabilizadas por questões ligadas à moralidade e à saúde pública. Já os clientes permaneciam, na maioria das vezes, protegidos pelo anonimato.
Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a recuperar documentos, processos e registros históricos para ampliar o conhecimento sobre esse período. Assim, cada nome identificado e cada história resgatada revelam que a Belle Époque amazonense não foi construída apenas pelos grandes empresários da borracha nem pelas obras monumentais que ainda marcam a paisagem de Manaus.
Também fizeram parte dessa história mulheres que enfrentaram pobreza, exclusão e violência para sobreviver em uma cidade que celebrava o progresso, mas distribuía seus benefícios de forma profundamente desigual.
A recuperação dessas narrativas significa aprofundar a compreensão sobre quem participou da construção de Manaus. Ao revisitar o passado, esse movimento permite reconhecer mulheres que permaneceram invisíveis durante gerações e devolver a elas um lugar na memória coletiva.
Curiosidade
A história dessas mulheres também inspirou a arte. O espetáculo Cabaré Chinelo, do Ateliê 23, reúne teatro, dança e música para retratar personagens inspiradas nas mulheres que viveram à margem da riqueza produzida pelo ciclo da borracha.
Dessa forma, a montagem convida o público a refletir sobre um dos capítulos menos conhecidos da história de Manaus e sobre as vozes femininas que permaneceram anônimas durante décadas.
Cris de Jesus
Jornalista em formação | Dançarina | Coreógrafa | Artista |Em constante construção.











