No século XVI, uma mulher assumiu o comando de uma das capitanias mais prósperas da América Portuguesa e conduziu decisões que ajudaram a consolidar a presença portuguesa na região. Brites de Albuquerque governou a Capitania de Pernambuco durante as ausências e, depois, após a morte do marido, Duarte Coelho Pereira.
Apesar de sua relevância histórica, Brites de Albuquerque permanece pouco conhecida pelos brasileiros. Dar visibilidade à sua trajetória é um gesto de reconhecimento a uma mulher que participou ativamente da construção do país e cuja atuação foi, por muito tempo, ofuscada pela historiografia tradicional.
Recuperar sua memória também representa uma reparação histórica e reforça que mulheres sempre ocuparam espaços de liderança, mesmo quando a sociedade insistia em silenciá-las.
Uma liderança em tempos de formação da colônia
Filha do fidalgo português Lopo de Albuquerque, Brites chegou ao Brasil em 1535 ao lado de Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco.
De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), ela assumiu a administração da capitania em diferentes períodos, especialmente entre as viagens do marido a Portugal e após sua morte, em 1554, quando governou até que o filho, Duarte Coelho de Albuquerque, tivesse condições de assumir a função.
Durante esse período, Brites coordenou a administração da capitania, acompanhou a organização dos primeiros engenhos de açúcar e participou da estruturação econômica e política da região. Além disso, enfrentou conflitos ligados à ocupação do território e atuou na manutenção da ordem administrativa em uma fase considerada decisiva para o desenvolvimento de Pernambuco.
A historiografia brasileira também registra sua participação na consolidação da Vila de Olinda, então sede da capitania, e na articulação das relações entre colonizadores, autoridades da Coroa Portuguesa e grupos indígenas.
Pesquisadores da Fundaj apontam que sua atuação demonstra que mulheres da elite colonial, embora limitadas pelas normas sociais da época, podiam exercer funções de governo em circunstâncias excepcionais.
Reconhecimento ainda restrito
Embora Brites de Albuquerque seja reconhecida por historiadores como uma das primeiras mulheres a exercer funções de governo no território que hoje corresponde ao Brasil, sua trajetória permanece pouco difundida fora dos estudos especializados.
A Base Nacional Comum Curricular, documento que orienta o ensino básico no país, incentiva a valorização da diversidade de sujeitos históricos. Ainda assim, especialistas em educação e história observam que personagens femininas continuam menos presentes nos materiais didáticos quando comparadas às figuras masculinas.
O resgate de histórias como a de Brites de Albuquerque amplia a compreensão sobre a formação do Brasil e evidencia que mulheres também participaram das decisões políticas, econômicas e administrativas desde os primeiros anos da colonização portuguesa.
Ao trazer esses movimentos para o debate público, pesquisadores e instituições culturais contribuem para uma narrativa histórica mais diversa, baseada em evidências documentais e alinhada às pesquisas produzidas por universidades e centros de memória brasileiros.










