Durante a gravidez, poucas palavras em um exame de sangue provocam tanta apreensão quanto “anti-TPO positivo”. O resultado pode indicar autoimunidade contra a tireoide, mas não significa, sozinho, que a mulher tenha hipotireoidismo.
É justamente essa diferença que ganhou novo peso nas recomendações brasileiras divulgadas em agosto de 2026 pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).
A principal mudança é que gestantes com anti-TPO positivo, mas com função tireoidiana normal, não devem receber levotiroxina apenas como prevenção.
A decisão acompanha a revisão internacional publicada pela American Thyroid Association (ATA) em junho de 2026, quase uma década depois da diretriz anterior.
O que mudou na prática
A levotiroxina é um hormônio sintético utilizado para repor a tiroxina quando a tireoide não produz quantidade suficiente. O ponto central da nova orientação não é abandonar o tratamento de doenças da tireoide durante a gravidez, mas evitar transformar um marcador de risco em diagnóstico.
Em caso que a gestante apresenta anti-TPO positivo, mas mantém TSH e T4 livre dentro dos parâmetros adequados, a recomendação brasileira passa a ser acompanhar a função da tireoide, em vez de medicar preventivamente. Isso é importante porque mulheres com autoimunidade tireoidiana continuam apresentando maior possibilidade de desenvolver hipotireoidismo ao longo da gestação. Portanto, retirar o hormônio preventivo não significa retirar o acompanhamento.
A mudança ganhou força com resultados de estudos clínicos que avaliaram justamente se a levotiroxina poderia evitar desfechos como aborto espontâneo e parto prematuro em mulheres eutireoidianas com anticorpos tireoidianos. A evidência acumulada não demonstrou benefício consistente que justificasse o uso rotineiro do medicamento nesse grupo.
A própria atualização da ATA foi construída a partir de revisão sistemática da literatura e metodologia GRADE, considerando benefícios, possíveis danos, qualidade das evidências, valores das pacientes e viabilidade das recomendações.
O Brasil mantém uma diferença importante
Há outro detalhe que merece atenção. O Brasil continuará defendendo o rastreamento precoce da função tireoidiana para todas as gestantes, enquanto a nova diretriz norte-americana passou a privilegiar uma estratégia de rastreamento seletivo baseada em fatores de risco.
A escolha brasileira considera que depender apenas de características clínicas pode deixar algumas mulheres com disfunção tireoidiana sem diagnóstico. Quando não for possível testar todas, a orientação é priorizar quem apresenta maior risco.
A atualização também retira idade materna, obesidade e número de gestações anteriores como critérios isolados de maior peso, por serem características frequentes e pouco específicas.
Outra mudança envolve o hipotireoidismo subclínico, situação em que o TSH está elevado, mas o T4 livre permanece normal. Para valores de TSH entre 4 e 10 mUI/L, a nova orientação brasileira concentra a indicação de tratamento no primeiro trimestre, período especialmente sensível para o desenvolvimento fetal.
Quando a alteração aparece mais tarde, a conduta passa a depender do nível do TSH, do T4 livre e do momento da gestação, e não simplesmente da presença de uma alteração laboratorial discreta. Valores de TSH superiores a 10 mUI/L continuam representando uma situação que exige tratamento.
Importante: a nova orientação não significa que mulheres que já fazem tratamento para hipotireoidismo devam suspender a levotiroxina.
Quem já possui diagnóstico de hipotireoidismo precisa de acompanhamento médico e, frequentemente, de ajustes de dose durante a gravidez, porque a necessidade hormonal pode aumentar nesse período.
Qualquer mudança de medicamento deve ser feita pelo obstetra e/ou endocrinologista responsável pelo pré-natal.











