Você já reparou como falar sobre investimento ainda parece complicado para muita gente? Quando olhamos para as mulheres, essa distância fica ainda mais evidente. A 5ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa da Anbima em parceria com o Datafolha, mostrou que 72% das mulheres não eram investidoras.
O levantamento foi feito entre 9 e 30 de novembro de 2021, com 5.878 pessoas de todas as regiões do país. Naquele momento, apenas 28% das mulheres entrevistadas investiam.
O cenário mudou, mas a distância continua
Agora vamos para os dados mais recentes. A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, divulgada pela Anbima em 2026 e baseada no comportamento financeiro observado em 2025, mostra que 31% das mulheres brasileiras já são investidoras. Entre os homens, o índice chega a 41%.
O estudo também aponta que 69% das mulheres ainda não utilizam ou não conhecem aplicações financeiras, enquanto entre os homens esse percentual é de 53%. Ou seja, houve avanço, mas o acesso ao universo dos investimentos ainda não acontece da mesma maneira para os dois grupos.
E onde entram as bets?
É aqui que aparece o contraste que merece atenção. A mesma 9ª edição do Raio X mostra que 17% da população fez apostas online em 2025, percentual que subiu de 14% em 2023 e 15% em 2024.
Entre os apostadores, 34% são mulheres e 66% são homens. A pesquisa também identificou que 37% dos apostadores gastam R$ 100 ou mais por mês com as plataformas.
O dado revela que as apostas conseguiram ocupar um espaço na rotina financeira de uma parcela das brasileiras, enquanto uma parte expressiva ainda não se reconhece como investidora.
A própria Anbima identificou que ganhar dinheiro rapidamente é uma das principais motivações para apostar. Em 2025, essa justificativa apareceu entre 39% das pessoas que apostavam, enquanto 32% disseram apostar por diversão.
Por que uma coisa parece mais acessível que a outra?
A resposta não está apenas na vontade de ganhar dinheiro. Existe também uma diferença na forma como esses dois universos chegam até as pessoas. As plataformas de apostas oferecem uma experiência imediata, digital e simples de compreender.
Já os investimentos costumam aparecer acompanhados de termos como rentabilidade, liquidez, risco, diversificação e perfil de investidor.
A Anbima decidiu investigar justamente esse comportamento. Em uma pesquisa qualitativa realizada em 2025, em parceria com a Kyvo, foram entrevistados 60 apostadores e ex-apostadores de diferentes regiões brasileiras.
O estudo analisou entrevistas, grupos focais, redes sociais e o ambiente digital para entender as relações entre apostas, dinheiro, risco e expectativa de ganho. Os resultados mostram que palavras comuns do universo financeiro, como “retorno”, “rendimento” e “estratégia”, também aparecem associadas às apostas.
A pergunta que fica para as mulheres
Se uma mulher consegue entrar em uma plataforma de apostas, compreender rapidamente como funciona e enxergar ali uma possibilidade de ganho, por que o investimento ainda parece tão distante? Essa pergunta importa porque educação financeira não deveria começar pelo medo dos números. Ela precisa partir da realidade de quem administra o próprio dinheiro, paga contas, cria filhos, trabalha, empreende ou tenta construir uma reserva.
Os dados mais recentes mostram que esse cenário pode mudar. Entre as mulheres que já investem, a caderneta de poupança ainda aparece para 69%, mas outros produtos começam a ganhar espaço. Títulos privados são utilizados por 16% e fundos de investimento por 10% das investidoras. A própria Anbima identifica, portanto, um movimento gradual de diversificação.
O ponto é entender o que faz uma mulher se sentir capaz de movimentar dinheiro em uma plataforma, mas ainda não se sentir preparada para investir. Quando informação financeira passa a usar uma linguagem mais simples, próxima e respeitosa, o dinheiro deixa de ser assunto distante e começa a fazer parte das decisões do cotidiano.











