Há artistas que pintam o tempo. Juliana dos Santos prefere deixá-lo trabalhar. A artista visual paulistana, nascida no bairro do Peruche, transformou o azul extraído da flor Clitoria ternatea em matéria de uma pesquisa que desafia a ideia de que uma obra precisa permanecer igual para ser reconhecida como arte.
Em 2026, seu trabalho ganhou ainda mais projeção ao integrar a lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil, entre 16 mulheres destacadas pela publicação.
Quando a natureza também assina a obra
Sua carreira combina formação acadêmica, experimentação e uma relação profunda com a própria origem. Doutora em Artes pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Juliana cresceu em um ambiente marcado pela cultura das escolas de samba e encontrou ali uma das primeiras referências para compreender a conexão entre arte e vida.
Hoje, sua investigação transforma pigmentos naturais em instalações e pinturas nas quais o azul pode se espalhar, desaparecer e adquirir novas tonalidades conforme o tempo e as condições do ambiente.
Essa escolha também muda a posição de quem observa. Em vez de entregar uma imagem pronta e definitiva, Juliana cria trabalhos abertos ao acaso, à umidade, ao vento e à passagem das horas.
Em “Temporã”, sua exposição individual na Pinacoteca de São Paulo, a participação do público fez parte do próprio processo de criação. Na 36ª Bienal de São Paulo, a artista ampliou essa investigação ao permitir que elementos da natureza interferissem no percurso da cor em trabalhos de grande dimensão.
Pesquisa, arte e identidade
O reconhecimento internacional veio acompanhado de uma trajetória construída sem atalhos. Em 2026, Juliana apresentou seu trabalho na ARCOmadrid, na Espanha, depois de integrar a 36ª Bienal de São Paulo e realizar “Temporã”.
A artista também está representada pela Galeria Luisa Strina, que registra sua participação em importantes exposições e instituições do circuito brasileiro.
Talvez esteja justamente aí a força de sua história. Juliana faz do pigmento da flor matéria para falar de memória, acaso e mudança. Ao aproximar natureza, identidade, racialidade e tempo, sua pesquisa cria uma arte que não se limita à contemplação, mas convida o público a perceber o que acontece enquanto a obra muda.











