Em uma época em que a vida das mulheres brasileiras era cercada por limites impostos pela sociedade, Maria Quitéria de Jesus decidiu atravessar um deles. Nascida na Bahia, em 1792, ela entrou para as tropas que lutavam pela Independência do Brasil na Bahia, em 1822, quando mulheres não podiam se alistar.
Para conseguir lutar, vestiu a farda e assumiu a identidade de seu cunhado, José Cordeiro de Medeiros. Tornou-se o Soldado Medeiros. A estratégia poderia ter terminado em punição quando sua identidade foi descoberta. Mas aconteceu o contrário. O desempenho de Quitéria nas batalhas foi reconhecido, e ela permaneceu nas tropas.
Uma mulher antes do seu tempo
Ela participou dos combates pela Independência na Bahia e integrou o Batalhão dos Periquitos. Sua atuação chamou a atenção pela habilidade com as armas e pela coragem em campo. Depois da guerra, foi ao Rio de Janeiro, onde recebeu de D. Pedro I a insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro e um soldo de alferes.
Mas talvez a parte mais poderosa dessa história esteja justamente no que veio depois. Maria Quitéria não construiu uma carreira militar feminina. Ela abriu uma brecha. Mais de um século depois, a presença das mulheres nas Forças Armadas começaria a ser institucionalizada. Em 1996, ela foi oficialmente instituída como Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro.
Maria Quitéria morreu em Salvador, em 21 de agosto de 1853, aos 61 anos. Durante muito tempo, sua trajetória ficou entre a memória histórica e o esquecimento. Hoje, seu nome permanece como símbolo de uma mulher que, em um Brasil que dizia onde uma mulher podia estar, decidiu ocupar um lugar que lhe diziam não pertencer.











